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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Depoimento de um Sultão

     Grande nortenho do oeste, que os deuses que você depende abençoem sua chegada! Vocês adoram doze ou quatorze deles, não? Bem vindo a Khejal, onde podemos realizar os seus desejos e garantir os seus temores.

    Nossa história é deveras grandiosa e longuíssima como as serpentes de Khejal, e aprendê-la exige dedicação tamanha que muitos de nossos sábios acabam dominando serpentes em vez de história. Para suas necessidades, a simplificarei:

    Éramos tantos ou mais quanto somos agora, mas limitados por Numéria, na época em que Numéria terminava aonde os desertos de água surgiam. Dajjal, maldito sejam suas unhas-chicote de areia, guerreou com fadas e mortais por razões mesquinhas, e invocou as devastações de Vritra, querendo negar o paraíso de Dilmun a todos. Os Saptarishi o mataram e desmembraram, mas a desgraça foi feita, como atesta a desertificação que cresce a cada ano.

    Confuso Não? Na época, mais ainda, tanto que distraiu os Entes Reais, e nós, pudemos experimentar com cálamos de vidro, luz do sol e magia, para derreter todo aquele pó de adamante meteórico no ar, usando-o como tinta com a qual caligrafamos nossas quintessências nos registros elementares que descrevem este mundo, assinando-os num contrato independente das restrições numérias. Este ato é a razão de seu nome simplório para nós ser “gênios”, além de nossa sagacidade e astúcia naturais.

    Mas todo contrato tem seus termos, e o mundo de Ghara impôs alguns sobre nossa liberdade. Quase a amaldiçoamos como Dajjal, cujo olho direito de rubi que definha o que vê um dia definhará em frente a um espelho de manufatura khejali, mas já sabíamos destilar fortuna de desgraças desde então, como um bom aguardente de coco. O magnífico elefante seria nossa salvação. Seu corpanzil consegue sustentar o ritual necessário, digerindo os excessos tóxicos de magia no deserto, e acumular em seu couro o pó de adamante que corrói a tudo e todos nas tempestades de areia. Assim viajam até tornarem-se pesados demais, seu couro endurecendo em tons metálicos, seu marfim cristalizando-se em bismuto arcano. Este desenvolvimento larval culmina nos domos palacianos que vocês apelidaram de thupas, onde as duplas presas iridescentes atraem adorações devidas até eclodir a futura manada que nos permitirá viajar além deste mundo. Nossa capital demonstrou a viabilidade deste projeto, e assim será. Para assegurar este objetivo, criamos as glórias da civilização khejali, suas castas e atribuições.

    Infelizmente, os melhores locais para as thupas estão ocupados pelos oásis feéricos remanescentes, por isto destroçamos suas miragens protetoras e massacramos seus defensores selvagens, aqueles elfos nabâtu tão inquietos frente à civilização e insensíveis a nossos infortúnios.

    Mas vamos ao que interessa. Lhe garanto artigos impossíveis em suas terras. Algumas de nossas ampulhetas realizam maravilhas após serem viradas, tal como reverter um erro severo ou três. Temos lunetas capazes de visualizar o passado, em diversos alcances e amplitudes. Penas mestiças de roc e estínfalo dispensam o restante da flecha. Mandalas de quartzo e khejalita para amplificar rituais. Alguns djinni criminosos aprisionados em lamparinas estão disponíveis no estoque, mas seja rápido antes que o prazo da lei me force a jogá-los ao mar, pois lendas terríveis derivam de tais atos. E nossos preços são tão maravilhosos como nossas modéstias! Para aqueles que não dispõem de ouro, pechinchas são possíveis. Por exemplo, aceitamos a servidão vitalícia de um descendente. Poucas décadas atrás, vendi tamanhos tesouros que o cliente parcelou o pagamento em trinta prestações, um primogênito de minha escolha a cada geração. Como negar o tesouro oferecido que é o futuro de uma família?

    Seus desejos serão realizados, meu amigo nortenho do oeste! Agora vá embora, tenho um duelo sobre o dorso de elefantes ao entardecer, e depois uma concubina Yakshini robusta a gritar meus nomes. Todos eles, por isso ela precisa ser robusta, as magrinhas não tem o devido fôlego.

Depoimento de um Nabâtu

    Estrangeiro nortenho do oeste, aprenda sobre nós e evitará novas cicatrizes. Os elfos nabâtu se organizam em tribos, uma para cada oásis feérico que restou da devastação que criou este deserto à sua volta. Cada uma se identifica por seu totem, assim como o totem define os tons de nossa pele. A tribo do cabelo de palmeira é do coco marrom, a tribo da arara de jade um verde reluzente, a tribo do camaleão tímido, quem sabe dizer? E há a tribo do camarão da areia, do mel fervente, do escorpião-chibata, da lacraia-hidra, do cacto cristalino, somos mais numerosos que você imagina.

    Apenas os merecedores poderão ver estas cores, como rivais, familiares e amantes. Para tal, nos cobrimos de tecidos e sais, que por acaso são úteis contra o calor do deserto, tamanha a perspicácia de nossa sorte. Alguns exibidos vestem apenas um roupão e nada mais, e rapidamente se despem em frente a qualquer oponente com meia espada, para fascínio de seus folhetins. Para que possamos ser identificados, respeitados e temidos, usamos nossos cocares sobre véus e capuzes, nos padrões e materiais típicos de cada oásis.

    Lutamos com muitas coisas contra muitas coisas, por isso nossas armas sagradas consistem de cabos ocos, nos quais guardamos pós, especiarias e ossos com propriedades especiais. Destes cabos fazemos cajados, espadas, flechas. Nossos campeões tem direito a carregar diversos destes ingredientes, e aprendem receitas poderosas. Nossos mestres são aqueles que abdicam de tais receitas e sabem preparar ou até improvisar combinações inéditas, mesmo que por acidente.

    As variedades feéricas de raízes, ervas, frutas e especiarias em nossos oásis são muito apreciadas por magos e alquimistas, e pelos paladares entediados dos nossos primos feidralin. Como os khejali patrulham o deserto com tapetes voadores, nossas caravanas se ocultam em miragens. Nossos marimbondos possuem corpo achatado e colorido metálico, pernas laminadas para deslizar pela areia, asas propelidas pelo vento, a grande para velocidade e a menor para agilidade, élitros que acomodam ditas asas em tempestades de areia. Assim conseguem servir como batedores à frente dos demais. Para evitar incidentes, guardas montados em solífugos gigantes vigiam os flancos dos enormes opiliões de carga. Estos últimos são muito importantes pelas ovas laranjas que trazem, bastante nutritivas e suculentas. E as protuberâncias de quartzo nas pernas, que quando se friccionam geram as ilusões estáticas que enganam até o faro dos gnolls que os sultões empregam.

    Todos estes planos e artifícios garantem a segurança de nossos lares, moldados em areia, sal e seiva, quase tão belos quanto um rebento sendo amamentado. Me perdoe, estou com saudades, meu filho já deve ter nascido a esta altura, e o fim da viagem está tão próximo, a primeira que faço sem minha esposa desde que nos conhecemos. Se a sua captura ter sido o fator decisivo que me impediu de acompanhar o parto, prometo que meu filho caçará o seu por minha honra, a dele, e a sua.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Karava Thukana, capítulo um: Antes da Batalha


— Eu sou um século mais velho que você, mas eu só aprendi a matar e gostar de matar, meu pequeno lorde. Se realmente deseja a minha sabedoria de ancião, ouça duas coisas: idade não é igual a sabedoria, e dez anos liderando lhe ensinaram mais do que os meus cento e vinte me divertindo — A gravidade na voz de Khumba era acentuada pelo fato de ser um qapukulu, praticamente um elefante bípede e inteligente.

— Mas e a segunda? — Perguntou Shevet, franzindo os lábios enquanto desviava o olhar para as cicatrizes antigas na barriga larga à sua frente.

— Não confie em um veterano que nunca perdeu ou você acabará perdendo com ele. Aquele comandante imperial, ele cheira a quem sempre venceu, e um perfume assim esconde um fedor de desastre iminente — Khumba levanta sua tromba, acenando-a para cima e para baixo — Fedor de desastre, sim. A falta de medo no suor acentua isso. Você perdeu sua família, meu lorde mahout, e cresceu já sabendo perder. É por isso que lhe obedeço. Qualquer idiota sabe ganhar, mas pensar e perder, admitir a derrota e reagir a esse medo... É por isso que lhe obedeço. Mas chega de sabedoria, agora vou beber aqueles barris.

Shevet sorriu e — As dores fantasmas e ardências das cicatrizes Khumba? Nenhuma dor no coração de matar tantos ainda? Ou no fígado, com toda essa bebida?

O paquiderme fungou a tromba, assustando dois soldados próximos — Eu estou velho, mas não estou mole, meu lorde do deserto. Meu coração adora tantas lutas, e o anão dentro do meu fígado adora a bebida. Só ossos quebrados, queimaduras e pedaços faltando que reclamam de incômodos como dardos flamejantes. Ainda mais como daquela vez em que estavam cravados na minha pança, me dando azia. Lembro que arranquei um com a tromba e olhei para os incrédulos à minha frente. A gordura da minha barriga havia levado a pior mas sentia que não ia aguentar muito. Então lambi a ponta, comentei que eu estava bem passado. Metade fugiu. Foi aí que recuperei meus marfins quebrados e...

— Não, de novo não, vá beber antes que eu fique enjoado. De novo.

— Como meu mahout desejar — Khumba se voltou aos festejos noturnos, bufou sua tromba como uma tuba, e seguiu em direção aos barris de aguardente, que pareciam tremer de medo. Ou talvez fossem as patas troncudas do qapukulu as responsáveis.

(Ele sempre desconversa quando comento a bebida)

Ele podia achar que convencia como um misto de guerreiro orgulhoso e velho perdido em lembranças, mas Shevet o conhecia melhor que isso. Khumba "Batalhão" Purushottama se via como um monstro, e sua aparência correspondia. Oferecido como tributo à casta sultanata khejali ainda criança, unido à essência de um elefante e criado como um guarda de elite, havia se tornado uma velha besta de guerra. As orelhas eram pesadas de tantas condecorações feitas em brincos. Quando eles dormiam ao relento, bastava se acomodar ao redor do corpanzil e seus roncos tenebrosos, que nenhum predador ousava chegar perto. Uma vez acordaram vendo um grupo de micos em cima de Khumba, se refugiando de algum perigo noturno.

Mas ele tinha razão. Aquele comandante não era apropriado para esta empreitada. Esta era a Via da Aliança Férrea, o selo sobre os acordos comerciais e militares que uniriam a Lega Groura, Khejal, Kosinbia, e a União dos Ducados Imperiais, mais conhecida como império do norte, em um bloco continental. Com uma forte participação de Technogestalt, através dos trens e ferramentas importadas pelo império. Algo tão importante não deveria estar tão mal defendido. Talvez fosse por isso que "Karava Thukana", a primeira companhia aventureira sancionada pelo imperador, estivesse ali. E como todo grupo aventureiro, um bando de desajustados. Além de Khumba, havia ele, um nabâtu, elfo do oásis da tribo da Lacraia-Hidra, e como tal, com pele de um mogno esmaltado cobrindo o corpo delgado e esbelto daqueles que crescem com pouca água e muita luta. Uma leve barba de quem se preocupa mais com sobrevivência parecia acentuar os cabelos negros e ondulados caindo até o pescoço. Nabâtu sempre cobriam o corpo para estranhos, mas ele havia passado muito tempo fora de seu oásis para isso, e cobria só o mínimo necessário. Depois de aprender magia no ducado de Sycamore, havia ficado dividido entre os nabâtu que o criaram e os elfos feidralin que lhe ensinaram tanto, até se dar conta de que os orcs eram uma ameaça a ambos. N'kaje e Nalalka concordavam, e haviam se unido a ele logo depois de Khumba.

...
— Khumba, conte o porquê do nosso nome.

— Conte você!

— Você conta melhor, estava lá afinal.

— Arrgh, está bem. Escutem nortenhozinhos, que só vou contar uma vez. Essa é a história do homem mais raivoso que já conheci. Ele era dado a vinganças desproporcionais. Quão desproporcionais? Durante uma escaramuça, ele estava urrando para o inimigo como de costume. Engasgou quando uma bala disparada por alguém quebrou um dente, e ficou presa na bochecha. Ele ignorou a dor, de tanta raiva por ter sido interrompido, e se arremessou contra os pistoleiros inimigos. Matou quinze e afugentou o resto. Não que ele compartilhasse da vitória, ainda estava frustrado por não ter determinado quem havia sido o responsável. Dava para ouvir ele atritando os dentes e o estalo quando mordeu o chumbo na boca — Khumba sorriu na maneira tranquila e amedrontadora que apenas uma criatura de quatro toneladas consegue — Vocês tinham que ver o sorriso arregaçado e sangrento que ele teve quando decidiu se vingar da bala. Catou um ferreiro devidamente embriagado para aceitar o serviço e o convenceu a moldar o projétil em um novo canino no lugar do que havia quebrado. Depois de algumas marteladas tão tensas que deixaram o ferreiro sóbrio, o bárbaro foi mastigar botas de couro saqueadas até ficar tranquilo. A partir daí, todo mundo o chamou de Karava Thukana, “cuspe amargo”, porque tinham medo de quando ele ria demais e cuspia o canino de chumbo sem querer. Era o meu herói, eu tinha que homenageá-lo.

Shevet aproveitava a distração animada e barulhenta das histórias de Khumba para examinar a situação.

(Nós aqui, sob uma bela noite adornada pelo anel orbital, tensos e ansiosos. Uma centúria de fundeiros goblins, habilidosos por necessidade. Duas centúrias de lanceiros, homens e hobgoblins. Se pegarem a primeira carga orc vão debandar. Pena, queria o Khumba flanqueando, mas vai ter que ser alvo gigante, de novo. Mas e os trabalhadores Shevet? Melhor deixá-los de fora. Mas o que sua tribo diria disto?)

— Para alguém que não adora fogueiras como eu, você está compenetrado demais nela — Nisto uma mão envolta em couro, com dedais prateados e pontudos cobriu sua visão. O calor era igualmente palpável, e familiar ao ponto de ser prazeroso. Shevet saiu de dentro de si e respondeu — Nalalka, bom sentir você. Terminaram o reconhecimento?

— Sim. Foi tão chato que o N’kaje estava quase caçando algo sozinho, então achei melhor voltar. Eu prefiro um gnoll ansioso e cansado a procurá-lo o dia inteiro amanhã — Nalalka Ebura se acomodou ao lado de Shevet e contemplou o fogo no centro do acampamento. Enquanto ela se distraía com o calor e brilho, Shevet olhou de relance algumas vezes para garantir que ela não havia passado por nada não contado. Os mesmos olhos castanhos, nariz pequeno, bochechas proeminentes. Pele de azeviche como toda kosinbiana, lustrosa de suor. Testa coberta por uma franja de tranças terminando em búzios, mas que na nuca era um coque solto e encrespado, como um grande algodão negro preso por uma varinha dourada de um “mago idiota”, nas palavras dela. Como o coque, havia muitas proporções fartas em Nalalka.

(Como diziam nas caravanas, ela era uma daquelas mulheres que pareciam ter aprendido com os camelos a armazenar água em certas partes. E o que isso tem a ver com o bem-estar dela, Shevet?)

Abriu seu roupão do tipo khalat, expondo uma longa saia pagne, de linho desbotado, peito realçado por duas grandes bandoleiras e conchas recheadas com pólvora. Podia ter deixado a pirataria, mas não a excitação em arriscar a vida.

(Bem carregada como sempre. Me pergunto se...) CLANG!

Vinda da noite, uma azagaia havia se enterrado no solo de cascalho — Os orcs, são os orcs, por Diveus eu não estou armado!— Um soldado exclamou tão perto de outro que este recuou antes de entender o significado das palavras. Olhares esbugalhados se cruzaram, mas — Não, não são. Eu só estava testando se as coisas ainda caíam para baixo. Vocês sabem como é, nunca se sabe. E elas estão, tenho quase certeza — N’kaje surgiu de trás de uma tenda, aparentemente satisfeito que sua azagaia de teste novamente caiu em vez de...

(Sabe-se lá o quê, ele só diz ser pior que rárérírórú, e ele só grita isso quando a situação está péssima).

Um gnoll, mistura de hiena e homem, mais maluco que ambos. Nem Nalalka sabia muito sobre ele antes de viverem no mesmo navio. Uma barbicha no queixo que descia até o pescoço como uma crina. Mesmo com o tapa-olho, ele parece simpático, até alguém perceber que seu sorriso é mais fixo que um tijolo em uma parede, levemente retorcido no canto sem dentes.

— N’KAJE, SEU BASTARDO, você assustou os trabalhadores. Esse aqui acabou de derramar, sniff, o que é essa coisa? — O paquiderme aproximou sua tromba da mancha no braço — Anão, o que é isso? — O mesmo pareceu muito aliviado no interesse de Khumba pela bebida ao invés da mancha — Samogon, Dom Khumba. “Bebida do diabo”. É uma aguardente temperada com pimenta, coisa forte. Como o araq de Khejal.

— E por que você estava carregando um balde inteiro dela?

— De onde eu venho, é vendida em baldes.

— E esse “onde” fica...

— A cordilheira no oeste imperial, Hamask Barbagia. Terra dos shardokan, "povo das lascas afiadas".

— Shard... Não são vocês que mineram o gelo eterno, aquele que os sultões usam para resfriar bebidas?

— Isso mesmo! Meu pai é um cortador de gelo.

Khumba reparou que além dele e o anão, só se ouvia o crepitar da fogueira.

(Tensos, muito tensos)

— Por falar em gelo, aqui está frio como bunda de baleia e quieto demais. Cantem! Esbravejem! Bebam! Esquentem-se, é o frio perfeito para começar amizades — após ver as expressões desanimadas ao redor, se volta ao anão — Está com medo de morrer? — O shardokan engole fundo e — Sim, Dom Khumba.

— Então você tem vontade de viver. Viva, viva tudo o que puder até amanhã, e se lembre dessa vida para querer continuar vivo depois. Se comportar como morto agora o fará morto depois. Você aí hobgoblin , gostei das suas presas, me fazem lembrar meu marfim que se foi. Mas essa lança é horrível. Você chama isso de afiado? Tenho calos que cortam melhor. Venham cá, vou mostrar o que é afiar algo. E o próximo que me chamar de “Dom” vai ser a minha pedra de amolar.

— Alguma descoberta hoje? — Shevet estava ficando em dúvida se haviam orcs por perto, depois de doze dias quietos. Nalalka e N’kaje esboçaram expressões amargas assim que o ouviram — O que aconteceu?

— Não vimos nenhum orc, mas — (Nalalka hesitando é um péssimo sinal) — achamos carniças e rastros de dias atrás, e não eram os predadores de sempre. Eu, nós, estimamos que estejam em maior número, famintos e por perto. Eles vão atacar assim que estiverem desesperados o suficiente.

(Más notícias, Shevet, hora de replanejar tudo)

— Isso não é bom.

— Não diga, eu não fazia ideia ainda — O sarcasmo de Nalalka era puro reflexo, ela nem estava tentando zombar — Mas cá entre nós, como vamos lidar com esse número? Se fôssemos só nós seria mais fácil, mas não, esta é a nossa "gloriosa" primeira missão como aventureiros sancionados, não vamos poder matá-los aos poucos. Oh não, minha Kahonua, precisamos fazer um espetáculo para os imperiais.

— E um espetáculo eles terão. Só precisamos ter certeza que os trabalhadores estejam seguros, mas possam ver a batalha. Estou considerando usar a ferrovia como isca, o que você acha?

— Sério? Podemos fazer isso?

(Não, mas uma boa campanha depende de muito planejamento e o dobro de improvisação)

Nalalka pausou a expressão, e murmurou algo para si mesma enquanto mexia em um búzio no canto da testa — Isto facilita as coisas. Muitos guerreiros bem armados bem perto da ferrovia, os trabalhadores ficam observando do forte, humm, é carne e ferro o suficiente para os orcs nos mirarem antes, vamos parecer bem mais apetitosos do que paliçadas. Mas vai depender muito da direção que eles vierem. Provavelmente será dali — Aponta o dedo às árvores no norte, e, com a precisão que só se espera de desgraças, um urro doloroso foi ouvido.

— Não podia ficar melhor. Eles estão se talhando. Shevet, pense em algo a dizer antes que os soldados ouçam, ou amanhã eles verão Kahonua, ou os deuses que preferirem.

O elfo assentiu.

(Eles têm que se importar com a ferrovia, talvez se...)

Quando um raspar de osso em metal foi ouvido por todos, os soldados ficaram pasmos, como se suas espinhas agora fossem feitas de gelo prestes a rachar — São só alguns barulhos, não prestem atenção. É como eu faço aqui dentro — N’kaje cutuca sua cabeça.

Enquanto os soldados estavam confusos se temiam os barulhos ou N’kaje, Shevet aproveita a distração e arremata — Nortenhos, entendam isto sobre os orcs: eles parecem grandes macacos peludos, fortes e sem instinto de autopreservação. Quando chegarem aqui, vão comer de tudo, até os trilhos e suas armas. Então, cada ferimento que sofrido cicatrizará em osso e ferro. Já vimos orcs sem pelo nenhum, tão cobertos com osso que pareciam feitos de pedra, mãos maciças e pesadas. Agora, pensem em quantos quilômetros de ferrovia vocês já construíram, em quantas toneladas de ferro conduzem direto até sua nação natal, onde estão as pessoas que todos vocês conhecem e querem ver de novo. E pensem em como os orcs se esforçam apenas para destruir os esforços dos outros.

domingo, 1 de outubro de 2017

A Roseira


Testemunho de Lorella D'Martel Scavélle, centuriã da Legio Quinta Sycamoria Victrix, em 1412. Sua alcunha, “A Roseira”, lhe foi concedida após o cerco de Sycamore, a capital de Sycamore e mais antiga das figueiras gigantes feidralin em todo o império, na batalha de desfecho da Guerra das Revanches de 1399-1402. Durante a carga decisiva, seus catafractários resistiram a milhares de projéteis. Após a batalha, Scavélle e sua montaria possuíam não menos que trezentos e vinte flechas, azagaias e dardos cravados em suas armaduras, e mais alguns que haviam penetrado na carne. Desde então, ela e os cavaleiros e montarias de sua ordem de origem, os Gendarme Belliqueuse, portam armaduras repletas de espigões, estilizados como espinhos em um alto-relevo dourado.

Tinha acabado de matar o gigante que me atacara com uma clava feita de um canhão rachado, gastando a última poção logo após. Alguém havia dito que os clarões no horizonte eram Diveus cauterizando os olhos de Trumuskerra, mas não sei se é verdade. Na hora só pensei em como estava com fome e sede e cansada. Por falta de campo aberto, as legiões estavam lutando a pé. As nossas montarias estavam seguras nas adegas. As mesmas eram defendidas por falanges anãs engalfinhadas com goblins tentando destruir as raízes subterrâneas de Sycamore. Eu lutava no topo das raízes, tentando impedir que os invasores as queimassem. Mesmo se isso não derrubasse a cidade, a fumaça poderia asfixiar os habitantes e refugiados nos distritos na copa da figueira gigante. Os arqueiros élficos tinham a vantagem da altura, mas os komatai retaliavam com balistas. Isso resultava em escaramuças inconclusivas.

Após oito meses de cerco, tínhamos um último plano, a tática da Garra de Uraçu. Algumas construções seriam desabadas, seguido de disparos contra os comandantes inimigos. A ideia era desorientar os goblinoides, permitindo uma investida montada. Minha tropa seria parte da vanguarda, abrindo o caminho para o restante das legiões. Assim que instauraram a confusão, avançamos raiz abaixo em formação de cunha. 


Os goblinoides são guerreiros naturais, mas indisciplinados mesmo em condições favoráveis. Lembro que um minotauro de quatro chifres reforçados correu de cabeça baixa em nossa direção. Ele urrou algo incompreensível mas igualmente ofensivo, percebeu que estava sozinho, parou incrédulo, olhou para trás e foi pisoteado por nossas montarias. Morreu confuso. Aí começou a chuva de flechas, respingos de metal estalando nas nossas armaduras. Gritamos "Dégustez notre élan!" e nos arremetemos à horda. Conseguimos traspassá-la logo na primeira carga, mas então veio a parte difícil. Tínhamos que manter a brecha para que a coluna principal pudesse passar.

Na cavalaria sycamoriana, ainda nos ensinam a usar lanças médias sobre o ombro para corpo-a-corpo entre tropas montadas e infantaria. Ótimo, porque quando minha lança quebrou, só resmunguei, girei meu braço para cima e usei o contrapeso afiado para alfinetar os infelizes que tentavam cortar os meus pés. Anos de prática resumidos em uma hora de reflexos mecanizados, desviar ou cortar, cortar ou desviar. Eu me via pensando em quantos pontos de dor eu sentia,  quais incluíam uma flecha roendo minha carne. Também ficava em dúvida se as gotas escorrendo pela minha espinha eram de suor, sangue ou ambos. 


Um desgraçado tentou remover uma azagaia cravada no lombo da minha montaria. O coice da minha égua o deixaram engasgado com um pedaço de ferradura para sempre. Girei para evitar novas surpresas e só enxerguei um carretel de morte e gritos de dor. O que eu ouvia era igualmente solitário. Eu me lembrei da história do comandante cantando no escuro para manter suas tropas unidas, e resolvi tentar o mesmo. Comecei o hino de Sycamore, e no segundo verso, já não cantava mais sozinha.

Enquanto ganhávamos tempo, os demais galoparam por todo o redor dos sitiantes, escaramuçando, destruindo suprimentos, investindo em retaguardas desprevenidas. Eu temia que a moral dos goblinoides nunca fosse ceder, até que pânico aqui e ali se espalhou tão rapidamente que pareceu uma represa estourando covardes e desertores em todas as direções. Depois seguiram algumas horas de perseguições, destruição de acampamentos e obras de cerco, resgate de prisioneiros e contra-pilhagem. 


Eu não estava em condições de participar, devido a uma flecha alojada no meu tapa-olho; se ele não fosse reforçado, teria perfurado meu crânio, o que teria atrapalhado meu dia. Na revista de prisioneiros pós-batalha, o hobgoblin que fez isso se identificou. Kafnius clamava que a minha bravura o fez mirar na minha cabeça para que minha alma não ficasse presa dentro dela após minha morte. Típica bobagem bárbara. Assim que deixei o hospital de campo, fiz questão de recrutá-lo como vigia noturno para a legião. Não se desperdiça uma mira boa assim em trabalhos forçados

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Rotina de um habitante de Scarnost




     Os gritos parecem humanos, mas certos tipos de inimigos conseguem soar mais humanos do que você. A máscara contra miasma abafa sons mais baixos. Junto com a escuridão, também o impede de enxergar o próprio mosquete. Não importa, pois está acostumado a manuseá-lo nestas condições.

     Você se concentra em numerar as coceiras por medida crescente de intensidade. O talco higiênico escorreu junto com a transpiração dias atrás. Não consegue sentir o gosto de nada exceto o sal das gotas de suor que correm pelo rosto. Comer significa expor o rosto, que por sua vez leva a queimaduras na pele e na laringe. O nariz só consegue cheirar o interior da máscara: couro úmido e rançoso. Ótimo. Isso quer dizer que o filtro está funcionando.

     Uma brecha no miasma melhora a visibilidade. Você percebe um calombo estranho em uma paisagem tornada familiar por sessenta e sete dias e noites de observação constante. Os protocolos são sempre claros. Você mira, prende a respiração, dispara. O miasma engrossa antes que possa confirmar um acerto. Os gritos param.



 Gostou? Que tal apoiar-me?

Os Deuses Informais

     Como dizia um certo crocodilo: olá. Não se lembra de mim, meu querido? Do que fizemos ontem? O Entrudo, lembra? Eu sou Aquele que estava junto com o Maruxo, o deus dos marginais.

    Ele é só o deus do que não é urbano nem cultivado, do instinto de dentro e do que se deixa lá fora. Sempre parece familiar porque você já o viu antes, mas nunca sabe dizer onde, e é assim que ele gosta. A voz sempre excita, apesar de soar bruta e rouca. Isso é porque parte de você lembra as coisas selvagens que ouviu ele cantar, das danças frenéticas que compartilhou, do suor e outros fluidos que você gastou na presença do Maruxo.

    Você teve sorte, nem eu sei onde vão parar as pessoas que ele fez sumir dentro da capa. Talvez sejam aquelas anônimas que sempre preenchem espaço na multidão sem chamar a atenção. Se for isso, esses ninguéns devem enlouquecer depois de um tempo, sozinhos e livres de todos. Talvez ele faça isso por mim, para me fortalecer com esses aperitivos sacrificiais de sanidade rompida até virarem fossos escuros de sussurros imprecisos, sujeiras mascaradoras e expressões desconcertantes que me valorizam embaixo de pontes, em brados e xingamentos nas esquinas, n'Aqueles vãos cinzas entre a realidade escura e a imaginação clara.

    E eu? Eu sou só a sua imaginação, é claro. Se discordar vá contar o que falei aos outros. Diga o que fiz na sua despensa ontem. Vão lhe olhar com incertezas e suspeitas, lhe colocar do outro lado da fronteira que eles se colocam, e você ficará mais e mais comigo. Ou não. Fique calado, cultive essa dúvida do que ou quem sou, essa leve apreensão roendo sua nuca por dentro. Nem precisa decidir, eu já o marquei.

    Nos vemos no próximo dia extra. Prometo que dessa vez você não vai se esquecer. E se você se descomportar bem, até o abençoarei em vez de atormentá-lo. Afinal, tudo tem um lado bom e um lado ruim. Até loucuras, até eu. Um beijinho daqueles d'Aquele.

    Se ajuda, tenho quase certeza que o Maruxo não é fruto da minha imaginação, assim como você. É difícil garantir no meu caso, sabe?

...

    O que foi? Quer encontrar o Maruxo? O Mil-máscaras, Corno do Chocalho, Linguará, Kukafera, o Damnatio Memoriae, o Pandegoso das Ménades? Está bem. Um ritual é necessário. Uma vida normal é uma jornada, uma trilha limitada por rotinas e familiaridades. Mas ali no arbusto fica o Maruxo, o ermitão que o observa, manejando o espelho para cegar seus olhos e tirá-lo de rumo. Você nunca se perguntou sobre aqueles barulhos que lhe acordam no meio da noite? Ora um bebê chorando, ora dois uivos desesperados, ora três passos no telhado? Mães por todo o império falam da hora de não sair para a rua. Elas não sabem o porquê, mas instinto maternal é bom em intuir ameaças, e o Maruxo pode ser uma das piores influências na vida de alguém. Não é por nada que pessoas sentem segurança em números à noite. Ser gregário é o anátema do Maruxo. O que será que nos observa na madrugada, e atende à aquela ânsia de gritar, correr e fornicar? O Maruxo!

    O ritual é assim: primeiro, faça algo fora do comum, alheio à rotina de seus conterrâneos. Para alguns, basta ser a ovelha-negra-local, o aventureiro, o bêbado, o insone. Em aglomerações maiores e mais diversas pode ser mais difícil, mas mesmo na capital há lugares e momentos propícios, marcados não pelas estrelas e fases da lua, mas pelo número de tochas apagadas e algo legível na silhueta da multidão que te ignora por um instante.

    Após cruzar essa fronteira, vá andar em círculos. Na cidade, na floresta, não importa. O importante é atingir por acaso os lugares que os mapas nunca marcam. Se você fizer direito, encontrará menos e menos companhia, mas começará a encontrar as pistas. Podem ser pichações subitamente compreensíveis, cães de rua se inclinando em direções sugestivas, rastros ao contrário, gárgulas piscando para você, profetas de rua cujas incoerências verbais são decifradas pelo seu contexto. Eles lhe explicarão como realizar o resto da jornada.

    Assim conhecerás o culto do Maruxo. Os Demais, tão numerosos quanto ignorados. A curandeira com ervas no cabelo, atendendo no vão entre dois depósitos. O vagabundo de tocaia na esquina, mascarando ressentimento e angústia com palavras gentilmente ocas, olhar de ansiedade predatória. O bêbado suplicando às suas garrafas vazias, os submissos que dão ordens às próprias sombras, o orfão indesejado, no canto com seu brinquedo quebrado. O Maruxo acompanha os solitários, e os abençoa com o refluxo da aguardente, a dor antes do alívio, a erosão nos bons modos, a pólvora úmida, o além-do-limite. Lembre-se da prece pichada aonde ninguém vai:


Se você esqueceu ou perdeu
O Maruxo lembrou e encontrou
Roupas rasgadas, vozes caladas
Os jamais amados, os filhos revoltados

    Onde adorar o Maruxo? Em lugar nenhum. Qualquer coisa grande o suficiente terá porções ignoradas pela maioria. Em uma vila, haverá um bosque aonde as pessoas evitarão entrar. Em um castelo, um poço que foi tapado e esquecido atrás da parede. Em uma cidade, haverá vizinhanças evitadas pelos demais. O escuro da noite, esgotos fedorentos, fortes abandonados, onde se adora o Maruxo não há ninguém. Pelo menos, ninguém memorável.


Maruxo, deus dos marginais by BrunoKopteSó tem um desenho esquisito.

 

...


    Você quer saber do quê? Entrudo? Isso não existe, e nós gostamos assim. A civilização nortenha, tão gloriosa e racional, tão conquistadora e famosa, tão orgulhosa de suas qualidades. E nem o calendário escapou. 13 meses, 13 deuses, 364 dias dedicados ao grande panteão nortenho. Sobrou um, o que fazer com ele? Deixa assim, fica sobrando, um dia extra, uma exceção sem importância, quem quer se preocupar com a exceção, não é mesmo?

    Era a rachadura que eu e o Maruxo precisávamos. Esse vácuo em um calendário tão organizado e racional foi a brecha perfeita aonde compensamos a falta dos nossos meses. E como compensar um mês inteiro dedicado a um deus, em um dia só? E uma dupla de deuses? Entrudo, com o Entrudo.

    Durante um dia, sacrificamos a civilização e sanidade do império inteiro. Invocamos fontes de bebida, talentos para dançar, falunões para satisfazer quem não tem par.
Depois, embriagados de adoração e outras coisas, fazemos todo mundo esquecer o que aconteceu.

    No dia seguinte, se vê a verdadeira extensão do poder da ignorância invocada pelo Maruxo. Ninguém estranha o parente sumido, alguns desastres sem causa, mais um corpo boiando no rio. Ninguém, exceto aqueles que eu marquei. O mais novo pedinte da rua principal, cujas lembranças embaçadas são ainda mais obscurecidas por mim, pelo poder do álcool, pela dor que as memórias trazem, pelo esforço com que os transeuntes ignoram suas palavras.

...

Aquele?
Aquele quem?
Tá louco?


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