Como dizia um certo crocodilo: olá.
Não se lembra de mim, meu querido? Do que fizemos ontem? O Entrudo,
lembra? Eu sou Aquele que estava junto com o Maruxo, o deus dos
marginais.
Ele é só o deus do que não é urbano nem
cultivado, do instinto de dentro e do que se deixa lá fora. Sempre
parece familiar porque você já o viu antes, mas nunca sabe dizer onde, e
é assim que ele gosta. A voz sempre excita, apesar de soar bruta e
rouca. Isso é porque parte de você lembra as coisas selvagens que ouviu
ele cantar, das danças frenéticas que compartilhou, do suor e outros
fluidos que você gastou na presença do Maruxo.
Você teve
sorte, nem eu sei onde vão parar as pessoas que ele fez sumir dentro da
capa. Talvez sejam aquelas anônimas que sempre preenchem espaço na
multidão sem chamar a atenção. Se for isso, esses ninguéns devem
enlouquecer depois de um tempo, sozinhos e livres de todos. Talvez ele
faça isso por mim, para me fortalecer com esses aperitivos sacrificiais
de sanidade rompida até virarem fossos escuros de sussurros
imprecisos, sujeiras mascaradoras e expressões desconcertantes que me
valorizam embaixo de pontes, em brados e xingamentos nas esquinas,
n'Aqueles vãos cinzas entre a realidade escura e a imaginação clara.
E eu? Eu sou só a sua imaginação, é claro. Se discordar vá contar o
que falei aos outros. Diga o que fiz na sua despensa ontem. Vão lhe
olhar com incertezas e suspeitas, lhe colocar do outro lado da fronteira
que eles se colocam, e você ficará mais e mais comigo. Ou não. Fique
calado, cultive essa dúvida do que ou quem sou, essa leve apreensão
roendo sua nuca por dentro. Nem precisa decidir, eu já o marquei.
Nos vemos no próximo dia extra. Prometo que dessa vez você não vai
se esquecer. E se você se descomportar bem, até o abençoarei em vez de
atormentá-lo. Afinal, tudo tem um lado bom e um lado ruim. Até
loucuras, até eu. Um beijinho daqueles d'Aquele.
Se ajuda,
tenho quase certeza que o Maruxo não é fruto da minha imaginação, assim
como você. É difícil garantir no meu caso, sabe?
...
O que foi? Quer encontrar o Maruxo? O Mil-máscaras, Corno do
Chocalho, Linguará, Kukafera, o Damnatio Memoriae, o Pandegoso das
Ménades? Está bem. Um ritual é necessário. Uma vida normal é uma
jornada, uma trilha limitada por rotinas e familiaridades. Mas ali no
arbusto fica o Maruxo, o ermitão que o observa, manejando o espelho para
cegar seus olhos e tirá-lo de rumo. Você nunca se perguntou sobre
aqueles barulhos que lhe acordam no meio da noite? Ora um bebê chorando,
ora dois uivos desesperados, ora três passos no telhado? Mães por todo
o império falam da hora de não sair para a rua. Elas não sabem o
porquê, mas instinto maternal é bom em intuir ameaças, e o Maruxo pode
ser uma das piores influências na vida de alguém. Não é por nada que
pessoas sentem segurança em números à noite. Ser gregário é o anátema
do Maruxo. O que será que nos observa na madrugada, e atende à aquela
ânsia de gritar, correr e fornicar? O Maruxo!
O ritual é
assim: primeiro, faça algo fora do comum, alheio à rotina de seus
conterrâneos. Para alguns, basta ser a ovelha-negra-local, o
aventureiro, o bêbado, o insone. Em aglomerações maiores e mais
diversas pode ser mais difícil, mas mesmo na capital há lugares e
momentos propícios, marcados não pelas estrelas e fases da lua, mas
pelo número de tochas apagadas e algo legível na silhueta da multidão
que te ignora por um instante.
Após cruzar essa fronteira,
vá andar em círculos. Na cidade, na floresta, não importa. O importante
é atingir por acaso os lugares que os mapas nunca marcam. Se você
fizer direito, encontrará menos e menos companhia, mas começará a
encontrar as pistas. Podem ser pichações subitamente compreensíveis,
cães de rua se inclinando em direções sugestivas, rastros ao contrário,
gárgulas piscando para você, profetas de rua cujas incoerências
verbais são decifradas pelo seu contexto. Eles lhe explicarão como
realizar o resto da jornada.
Assim conhecerás o culto do
Maruxo. Os Demais, tão numerosos quanto ignorados. A curandeira com
ervas no cabelo, atendendo no vão entre dois depósitos. O vagabundo de
tocaia na esquina, mascarando ressentimento e angústia com palavras
gentilmente ocas, olhar de ansiedade predatória. O bêbado suplicando às
suas garrafas vazias, os submissos que dão ordens às próprias sombras,
o orfão indesejado, no canto com seu brinquedo quebrado. O Maruxo
acompanha os solitários, e os abençoa com o refluxo da aguardente, a
dor antes do alívio, a erosão nos bons modos, a pólvora úmida, o
além-do-limite. Lembre-se da prece pichada aonde ninguém vai:
Se você esqueceu ou perdeu
O Maruxo lembrou e encontrou
Roupas rasgadas, vozes caladas
Os jamais amados, os filhos revoltados
Onde adorar o Maruxo? Em lugar nenhum. Qualquer coisa grande o
suficiente terá porções ignoradas pela maioria. Em uma vila, haverá um
bosque aonde as pessoas evitarão entrar. Em um castelo, um poço que foi
tapado e esquecido atrás da parede. Em uma cidade, haverá vizinhanças
evitadas pelos demais. O escuro da noite, esgotos fedorentos, fortes
abandonados, onde se adora o Maruxo não há ninguém. Pelo menos, ninguém
memorável.
Só tem um desenho esquisito.
...
Você quer saber do quê? Entrudo?
Isso não existe, e nós gostamos assim. A civilização nortenha, tão
gloriosa e racional, tão conquistadora e famosa, tão orgulhosa de suas
qualidades. E nem o calendário escapou. 13 meses, 13 deuses, 364 dias
dedicados ao grande panteão nortenho. Sobrou um, o que fazer com ele?
Deixa assim, fica sobrando, um dia extra, uma exceção sem importância,
quem quer se preocupar com a exceção, não é mesmo?
Era a
rachadura que eu e o Maruxo precisávamos. Esse vácuo em um calendário
tão organizado e racional foi a brecha perfeita aonde compensamos a
falta dos nossos meses. E como compensar um mês inteiro dedicado a um
deus, em um dia só? E uma dupla de deuses? Entrudo, com o Entrudo.
Durante um dia, sacrificamos a civilização e sanidade do império
inteiro. Invocamos fontes de bebida, talentos para dançar, falunões
para satisfazer quem não tem par.
Depois, embriagados de adoração e outras coisas, fazemos todo mundo esquecer o que aconteceu.
No dia seguinte, se vê a verdadeira extensão do poder da ignorância
invocada pelo Maruxo. Ninguém estranha o parente sumido, alguns
desastres sem causa, mais um corpo boiando no rio. Ninguém, exceto
aqueles que eu marquei. O mais novo pedinte da rua principal, cujas
lembranças embaçadas são ainda mais obscurecidas por mim, pelo poder do
álcool, pela dor que as memórias trazem, pelo esforço com que os
transeuntes ignoram suas palavras.
...
Aquele?
Aquele quem?
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